Proponho-me estudar o fenómeno da percepção através do som e da imagem numa determida acção – o processo de identificação dos produtos para validação dos valores de pagamento nas “caixas” dos supermercados.
A partir da troca do código de barras de um produto por um outro código, captarei a reacção da funcionária da “caixa” quando o processo de leitura que a máquina faz não for, portanto, bem sucedido.
Este processo assemelha-se à diferença entre os filmes de Buster Keaton, não sonorizados, e de outros filmes do mesmo género e os filmes de Laurel e Hardy ou de Jaques Tatti. Por exemplo, as quedas de objectos ou de personagens têm um maior impacto no espectador porque temos som, mais ou menos grave, com maior ou menor volume, associado às imagens que vemos. Jaques Tatti usa muitas vezes o som como objecto paródico, ou seja, o som serve ele mesmo para enfatizar o acontecimento.
O ser humano fica confuso na distinção de imagens quase idênticas, todos nós confundimos irmãos gémeos dada a sua grande semelhança. O Homem necessita de um outro sentido para distinguir imagens quase idênticas. No caso do filme de Luis Buñuel temos que atentar na voz das personagens para conseguirmos distingui-las. No cinema, o som serve muitas vezes para personalizar e caracterizar as personagem.
Nos dias que correm, o som torna-se tão ou mais importante que a imagem. Todos os dias somos bombardeados com as mesmas imagens ao ponto de já nem repararmos nelas. A publicidade impressa sofre deste problema. O som, como complemento a uma imagem ou só por ele mesmo, chama a atenção. Visto que o som não se pode tornar estático, ou seja, se o pararmos deixamos de o ouvir, temos mesmo de estar atentos para que a sua percepção seja completa. Um grito aos nosso ouvidos tem um efeito muito maior na nossa atenção que uma imagem que passe à nossa frente, por mais chocante que seja.
Num supermercado, a passagem do produto para validação da compra só é conseguido quando a máquina emite um som “bip” ou seja o processo – pegar no produto; passar no scanner; pousar no saco de compras – só é considerado bem sucedido se ouvirmos o “bip”. Este “bip” funciona como personificação da máquina que avisa que o processo está correcto. A leitura da representação gráfica foi bem feita e o produto está em conformidade para se proceder ao pagamento, que é o objectivo final”.
No cinema, muitas vezes, o som funciona com o mesmo objectivo. Por exemplo, no caso de um tiro de uma arma só acreditamos que este objecto dispara uma bala quando ouvimos o som do tiro. O som funciona como validação do acto de disparar uma arma. A mais valia do cinema western foi a parte sonora. O espectador sentia-se na cena e a adrenalina do confronto de disparos era passada para o público. No cinema de terror, o som tem o mesmo efeito, o suspense correspondente a que algo vai acontecer, é validado pela mítica batida crescente da música ou pelo mais simples rufo de tambor.
O Homem associa som-imagem-causalidade. A funcionária da “caixa” do supermercado associa o “bip” à validação do produto e só pára este processo quando o som não é emitido. Ela identifica, nas embalagens dos produtos, uma imagem que é o “código de barras”. Visualmente a operadora não consegue distinguir um código de barros correcto de um outro incorrecto. O seu comportamento é validado por um som – desde que a máquina produza o som que a operadora considera válido, todo o processo é validado.
Bibliografia
NINIO, Jacques (1991) – A impregnação dos sentidos - Lisboa : Instituto Piaget
CHION, Michel (2008) - A audiovisão, som e imagem no cinema – Lisboa : Edições texto e grafia
Filmografia
Luis Buñuel (1977) - Este Obscuro Objecto do Desejo
Fritz Lang(1931) - Matou
Buster Keaton (1920) - One Week
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